Quatro em cada cinco mulheres na pós-menopausa têm sintomas geniturinários. Em Portugal, dois milhões de mulheres estão em menopausa ou pós-menopausa — e 35% sofrem de atrofia vulvovaginal. Mas só 7% recebem tratamento. Estes números, da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, descrevem o silêncio mais antigo da medicina das mulheres: aquele que se faz à volta da vagina, da bexiga, do desejo e do que dói no sexo. Este artigo é para quebrar esse silêncio. Vais perceber o que é a Síndrome Geniturinária da Menopausa (SGUM), por que razão piora com o tempo (ao contrário dos afrontamentos), o que a ciência já demonstrou que funciona — e o que não funciona, por mais que o vendam — e como falar com o teu médico para deixares de "aguentar". Porque sim, isto trata-se. E os tratamentos são seguros, eficazes e, na maioria dos casos, podem ser usados durante anos.
O sintoma que ninguém te disse que viria
A maior parte das mulheres entra na menopausa a temer os afrontamentos. Os anúncios falam disso. As avós falavam disso. As séries fazem piadas com isso. Mas ninguém te avisa para o que vem a seguir — e fica.
A Síndrome Geniturinária da Menopausa é o termo clínico criado em 2013 para descrever um conjunto de alterações causadas pela queda do estrogénio nos tecidos vulvares, vaginais e do trato urinário inferior. Na prática, traduz-se em secura vaginal, ardor, comichão, dor durante a penetração (dispareunia), urgência urinária, infeções urinárias recorrentes e ardor a urinar.
O facto importante: ao contrário dos afrontamentos, que tendem a melhorar nos anos pós-menopausa, a SGUM piora com o tempo se não for tratada. É progressiva. É crónica. E afeta entre 40% e 60% das mulheres entrevistadas, com a secura vaginal a ser referida por 47% a 100% e a dor durante o sexo entre 20% e quase 78%, segundo as Guidelines AUA/SUFU/AUGS 2025.
Em Portugal, os dados da Sociedade Portuguesa de Ginecologia apontam para 83% das mulheres pós-menopausa com sintomas geniturinários — em conjunto com outros sintomas da menopausa. E ainda assim continua a ser o sintoma menos falado em consulta.
O que está a acontecer no teu corpo
Os tecidos da vulva, vagina, uretra e bexiga têm receptores de estrogénio. Quando os ovários reduzem a produção de estradiol durante a perimenopausa e pós-menopausa, estes tecidos perdem espessura, elasticidade e lubrificação.
O que muda fisicamente:
- O epitélio vaginal afina-se e torna-se frágil — pode sangrar com pequenas fricções.
- O pH vaginal, que era ácido (3,5–4,5), sobe para valores mais alcalinos (acima de 5).
- A microbiota muda: os lactobacilos diminuem, o que aumenta o risco de infeções vaginais e urinárias.
- A vulva pode parecer mais pálida, com lábios menores menos definidos e introito (entrada da vagina) mais estreito.
- A uretra e o trígono da bexiga ficam mais sensíveis — daí a urgência urinária e a sensação de "infeção" mesmo sem bactérias.
É esta cascata que explica por que razão tantas mulheres descrevem dor "que não tinha antes", infeções urinárias que aparecem do nada aos 55 anos, ou a perda da vontade de ter sexo — não por falta de desejo, mas por antecipação da dor.
Os sinais que tens de aprender a reconhecer
A SGUM não chega de uma vez. Vai-se instalando. Estes são os sinais que merecem uma conversa médica:
- Secura vaginal persistente, mesmo fora do contexto sexual — sentires que tens "areia" ou desconforto ao usar calças de ganga, ao caminhar, ao fazer exercício.
- Dor ou ardor durante a penetração, dor pós-coital, sangramento ligeiro após o sexo.
- Comichão ou irritação vulvar recorrente, sem causa infeciosa identificada.
- Infeções urinárias repetidas (mais de duas por ano).
- Urgência miccional — sentires que tens de ir à casa de banho com pressa, mesmo com pouca urina.
- Ardor a urinar sem que a urocultura mostre infeção.
- Perda de libido associada à dor ou ao desconforto.
Não tens de ter todos os sintomas. Um chega para procurar ajuda. E não precisas de "esperar até estar pior".
Porque é que ninguém fala disto
Há três razões, todas evitáveis.
Tabu cultural. Falar sobre a vagina depois dos 50 anos continua a ser, para muitas, um tabu maior do que falar de doença cardíaca ou cancro. As mulheres assumem que "é da idade" e calam-se. Os parceiros calam-se. As consultas tornam-se rápidas. O silêncio cresce.
Tempo de consulta. Numa consulta de ginecologia de 15 a 20 minutos, há sempre algo "mais urgente". A SGUM, sem ferida visível, sem análise alterada, sem dor aguda, fica para a próxima vez. E a próxima vez nunca chega.
Subdiagnóstico médico. Mesmo entre profissionais, persiste a ideia de que a secura vaginal é uma "consequência natural do envelhecimento" — algo a aceitar, não a tratar. Em 2024, uma ginecologista portuguesa alertou publicamente que a secura vaginal não tratada pode ter consequências graves: infeções urinárias de repetição, urosepsis em mulheres mais frágeis, perda de qualidade de vida e impacto direto na saúde mental e relacional.
Quando a Sociedade Portuguesa de Ginecologia lançou a sua campanha de sensibilização sobre SGUM, foi precisamente para desmontar este silêncio em três frentes: pacientes, parceiros e clínicos.
O que funciona — e o que não funciona
Aqui é onde a evidência é clara e generosa. Tens opções. Muitas. E quase todas têm um perfil de eficácia e segurança que, se fosse para os afrontamentos, já estaria em todas as revistas.
Primeiro patamar: hidratantes e lubrificantes vaginais
São a base. Não são a mesma coisa.
Os lubrificantes usam-se durante o ato sexual para reduzir o atrito. Preferem-se à base de água ou silicone, sem glicerina, sem parabenos, sem perfumes. Os à base de água são compatíveis com preservativos de látex e com brinquedos de silicone se forem de silicone evita-se em brinquedos do mesmo material.
Os hidratantes vaginais são aplicados regularmente (duas a três vezes por semana), independentemente da atividade sexual. Restauram a humidade do tecido vaginal de forma contínua. Os de ácido hialurónico têm boa evidência.
Para sintomas ligeiros, os hidratantes podem ser suficientes. Para sintomas moderados a graves — dor real, infeções recorrentes, secura que persiste — não são suficientes. E a evidência é clara aqui: não basta esperar mais um pouco.
Segundo patamar: estrogénio vaginal local
É o tratamento padrão-ouro para SGUM moderada a grave. As Guidelines AUA/SUFU/AUGS 2025 recomendam que os clínicos ofereçam estrogénio vaginal de baixa dose a doentes com SGUM, para melhorar desconforto, secura e dispareunia.
Os formatos disponíveis em Portugal:
- Cremes vaginais com estradiol ou estriol.
- Comprimidos vaginais de baixa dose.
- Anel vaginal de libertação prolongada (em alguns mercados).
O esquema típico começa com aplicações diárias durante 2 a 3 semanas (fase de ataque) e passa para 2 vezes por semana (manutenção). Os benefícios começam a sentir-se em 2 a 4 semanas; o pico de efeito chega às 12 semanas.
Um ponto crucial e muitas vezes mal explicado: o estrogénio vaginal local não é o mesmo que terapêutica hormonal sistémica. A absorção sistémica é mínima — os níveis de estradiol no sangue mantêm-se dentro do intervalo da pós-menopausa. Por isso, o perfil de risco é radicalmente diferente da terapêutica hormonal oral ou transdérmica.
Em 2025, a FDA dos Estados Unidos atualizou as bulas e retirou os avisos em caixa preta que equiparavam o estrogénio vaginal aos riscos da terapêutica hormonal sistémica, reconhecendo que o seu perfil de segurança é distinto.
E para mulheres com história de cancro da mama?
Esta é uma das perguntas mais difíceis e mais mal respondidas em consulta. A boa notícia é que a evidência mais recente é tranquilizadora.
Uma systematic review e meta-análise publicada no American Journal of Obstetrics & Gynecology em 2025 concluiu que o uso de estrogénio vaginal em mulheres com história de cancro da mama não parece estar associado a aumento de risco de recidiva, de mortalidade específica por cancro da mama, ou de mortalidade global.
Em mulheres a fazer inibidores da aromatase, a evidência é mais mista — um estudo dinamarquês observou aumento de risco de recidiva, enquanto outros não. A decisão deve ser individualizada e tomada em conjunto com a equipa de oncologia, mas "não tens opção" deixou de ser uma frase verdadeira.
Terceiro patamar: alternativas farmacológicas
Para quem não pode ou não quer estrogénio local, há duas alternativas com evidência:
Prasterona vaginal (DHEA, comercializada como Intrarosa). É um precursor hormonal que é convertido localmente em estrogénio e testosterona dentro das células vaginais — sem subir os níveis sistémicos. Está aprovada para dispareunia moderada a grave da menopausa. Em ensaios clínicos, melhorou significativamente a dispareunia, a secura, o pH vaginal e a maturação celular do epitélio em 12 semanas. O efeito secundário mais reportado é o corrimento vaginal (em 2,7% das mulheres).
Ospemifeno oral (60 mg/dia). É um modulador seletivo dos receptores de estrogénio (SERM) que age como estrogénio na mucosa vaginal, sem os efeitos sistémicos da terapêutica hormonal. Melhora secura, dispareunia e satisfação, com perfil tolerável. É uma boa opção para quem prefere comprimidos a aplicações vaginais.
O que NÃO funciona (mas é vendido como se funcionasse)
Aqui é onde tens de ter atenção. As Guidelines AUA/SUFU/AUGS 2025 são explícitas:
- Suplementos alternativos (incluindo isoflavonas em formato suplemento, sem evidência específica para SGUM): não recomendados.
- "Lavagens íntimas" e produtos de higiene vulvar perfumados: não recomendados; podem agravar.
- Laser ER:YAG e radiofrequência: não recomendados para tratamento da SGUM. Apesar de muito comercializados em clínicas privadas, a evidência atual não suporta o seu uso. Em 2018, a FDA emitiu um aviso de segurança sobre o uso destes dispositivos para "rejuvenescimento vaginal".
Isto não significa que ninguém tenha tido benefício. Significa que, perante a evidência disponível, não há justificação para gastar centenas (ou milhares) de euros em sessões antes de tentar tratamentos com eficácia comprovada.
O que fazer já esta semana
Se estás a ler isto e te reconheceste em algum sintoma, aqui está um plano concreto:
- Faz uma lista honesta dos teus sintomas: há quanto tempo, com que frequência, que impacto têm na tua vida diária e relacional. Leva esta lista à consulta. Reduz o tempo perdido a tentar lembrar-te.
- Marca consulta com o teu ginecologista ou médico de família e usa as palavras certas: "Acho que tenho sintomas de Síndrome Geniturinária da Menopausa." Esta frase muda imediatamente o registo da consulta.
- Pergunta diretamente: "Sou candidata a estrogénio vaginal local?" Se a resposta for "espera mais um pouco", pede uma justificação clínica. Se não houver, pede segunda opinião.
- Começa pelo básico mesmo enquanto esperas: hidratante vaginal sem glicerina e sem perfume, 2 a 3 vezes por semana; lubrificante de boa qualidade durante o sexo; reduz produtos perfumados na higiene íntima.
- Se tiveste cancro da mama, leva consigo o resumo do teu caso clínico e peça avaliação conjunta com o oncologista. As opções existem.
O sexo, o desejo e a verdade que ninguém te diz
Há uma confusão que precisa de morrer: a ideia de que perdes a libido na menopausa "porque é assim". Em muitos casos, o que perdes é a vontade de ter sexo que dói. Não é o mesmo.
Estudos consistentes mostram que, quando a SGUM é tratada, uma parte significativa das mulheres recupera prazer, lubrificação e disponibilidade. Não todas — a libido é multifatorial e envolve hormonas, contexto relacional, saúde mental, sono, fadiga, autoestima, história sexual. Mas tirar a dor da equação muda quase tudo.
O sexo na menopausa pode ser melhor do que aos 30. Há quem o diga, e há evidência de satisfação sexual em mulheres pós-menopausa que tratam a SGUM e mantêm vida sexual ativa. A frequência sexual regular, aliás, ajuda a manter os tecidos vaginais. É também por isso que a recomendação clínica clássica é: trata-se a SGUM, e mantém-se atividade sexual (sozinha ou acompanhada) — porque ambas as coisas se reforçam mutuamente.
O que pedir na próxima consulta
Para te dar autonomia, eis um conjunto de perguntas concretas:
- "Estes sintomas que descrevo são compatíveis com SGUM?"
- "Que opções de tratamento existem para o meu caso?"
- "Quais os benefícios e riscos de estrogénio vaginal de baixa dose para mim?"
- "Há contraindicações no meu historial clínico?"
- "Quanto tempo posso usar este tratamento de forma segura?"
- "Que sinais de alarme devo reportar?"
- "Quando devo voltar para reavaliação?"
Estas perguntas mudam a consulta. Tornam-na uma conversa entre adultas, não um monólogo apressado.
A boa notícia (a verdadeira boa notícia)
A SGUM é, talvez, o sintoma da menopausa com a melhor relação eficácia-segurança em medicina. Os tratamentos são acessíveis, agem rápido, podem ser usados durante anos e têm efeitos secundários mínimos.
O obstáculo nunca foi médico. Foi cultural, comunicacional e de tempo de consulta.
Se há uma coisa que esta nova geração de mulheres está a fazer diferente é recusar o silêncio. Estão a falar com as filhas. Estão a pedir consultas onde antes se calavam. Estão a ler, a perguntar, a escolher.
Tu também podes. E hoje é um bom dia para começar.
Próximos passos
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Se queres aprofundar temas relacionados, lê também o nosso artigo sobre saúde cardiovascular na menopausa e o guia sobre sono na menopausa — porque a saúde íntima não vive sozinha; vive num corpo inteiro.
"A secura vaginal não tratada não é apenas desconforto — é uma porta de entrada para infeções urinárias recorrentes, perda de qualidade de vida e, em mulheres mais frágeis, pode ter consequências graves." — alerta de ginecologistas portugueses, em campanha pública (2024).
Fontes e referências
- American Urological Association, Society of Urodynamics, Female Pelvic Medicine & Urogenital Reconstruction (SUFU), American Urogynecologic Society (AUGS). Genitourinary Syndrome of Menopause: AUA/SUFU/AUGS Guideline (2025). Disponível em auanet.org.
- The Menopause Society. The 2020 Genitourinary Syndrome of Menopause Position Statement of The North American Menopause Society. Menopause, 2020. PubMed: 32852449.
- Sociedade Portuguesa de Ginecologia. Campanha de sensibilização sobre Síndrome Geniturinária da Menopausa. Newsfarma e spginecologia.pt.
- Fifth International Consultation on Sexual Medicine (ICSM 2024). Genitourinary syndrome of menopause: recommendations. Sexual Medicine Reviews, 2025. Oxford Academic.
- Vaginal estrogen use in breast cancer survivors: a systematic review and meta-analysis of recurrence and mortality risks. American Journal of Obstetrics & Gynecology, 2025. PubMed: 39521301.
- Hormonal Treatments and Vaginal Moisturizers for Genitourinary Syndrome of Menopause: A Systematic Review. Annals of Internal Medicine, 2024. Annals of Internal Medicine.
- Vaginal dehydroepiandrosterone (DHEA / prasterona) for treatment of vulvovaginal atrophy. PMC7812532.
- Treatment of moderate to severe dyspareunia with intravaginal prasterone therapy: a review. Climacteric, 2018.
- Mayo Clinic. Vaginal atrophy — diagnosis and treatment. mayoclinic.org.
- Medis. Viver Bem a Menopausa — Guia de Saúde. medis.pt.
- Casa de Saúde da Boavista. Menopausa e atrofia vulvovaginal: uma fatalidade a suportar ou um problema a tratar? csaudeboavista.com.
- Haver, M. The New Menopause. 2024.
- The Menopause Society. Menopause Practice: A Clinician's Guide (6th Edition), 2023.