Sintomas

Afrontamentos na menopausa: o sintoma mais (in)compreendido — e como tratar

80% das mulheres têm afrontamentos. Duram em média 7-10 anos. Hoje há mais tratamentos eficazes do que alguma vez houve — hormonais e não-hormonais.

Tens 45 anos, estás no meio de uma reunião, e de repente sentes uma onda de calor a subir-te pelo peito, pescoço e rosto. Ficas vermelha, começas a transpirar e só consegues pensar: "O que é que se passa comigo?" Se isto te é familiar, não estás sozinha — até 80% das mulheres experienciam afrontamentos durante a menopausa, e para muitas, este é o sintoma mais perturbador de todos.

A boa notícia? A ciência avançou enormemente nos últimos anos. Hoje sabemos exatamente o que acontece no teu cérebro quando tens um afrontamento, e existem tratamentos eficazes — hormonais e não hormonais — que podem devolver-te o controlo. Neste artigo, vamos explicar-te tudo: o que são os afrontamentos, porque acontecem, quanto tempo duram, e o que podes fazer para os aliviar.

O que são afrontamentos, afinal?

Os afrontamentos — o termo médico é sintomas vasomotores (SVM) — são episódios súbitos de calor intenso que geralmente começam no peito e sobem para o pescoço e rosto. Podem durar entre 1 a 5 minutos e vêm frequentemente acompanhados de transpiração intensa, palpitações, rubor na pele e, por vezes, calafrios logo a seguir.

Quando acontecem durante a noite, chamamos-lhes suores noturnos — e são uma das principais causas de perturbações do sono na menopausa. Acordas encharcada, trocas de roupa, e depois não consegues voltar a adormecer. O impacto na qualidade de vida é real e significativo.

Segundo a British Menopause Society, os afrontamentos afetam cerca de 75% das mulheres, podem ser severos em 29% dos casos, e até 42% das mulheres entre os 60 e 65 anos continuam a senti-los. A duração média é de 7 a 10 anos, muito mais do que se pensava anteriormente.

Porque é que acontecem? A ciência por trás dos afrontamentos

Durante décadas, sabíamos que os afrontamentos estavam ligados à queda de estrogénio, mas não percebíamos exatamente como. Nos últimos anos, a investigação científica revelou o mecanismo: tudo se passa no teu hipotálamo — a zona do cérebro que funciona como um termostato.

No centro desta descoberta estão os chamados neurónios KNDy — que produzem três substâncias: kisspeptina, neuroquinina B e dinorfina. Estes neurónios, localizados no núcleo arqueado do hipotálamo, ajudam a regular tanto a temperatura corporal como as hormonas reprodutivas.

Quando os teus níveis de estrogénio caem durante a perimenopausa e menopausa, estes neurónios perdem o seu "travão" natural. Tornam-se hiperativos e produzem neuroquinina B em excesso. O resultado? O teu termostato cerebral fica desregulado — a chamada zona termoneutra (o intervalo de temperatura que o teu corpo considera "normal") estreita-se drasticamente. Qualquer pequena variação na temperatura corporal é interpretada como "demasiado quente", e o teu corpo reage dilatando os vasos sanguíneos da pele e ativando a transpiração para se "arrefecer".

Esta descoberta foi revolucionária — e abriu a porta a novos tratamentos que atuam diretamente neste mecanismo cerebral, como veremos mais à frente.

Quanto tempo vão durar os meus afrontamentos?

Esta é uma das perguntas mais comuns — e a resposta varia. Segundo o estudo SWAN (Study of Women's Health Across the Nation), um dos maiores estudos longitudinais sobre menopausa:

  • Duração mediana: 7,4 anos
  • Se começaram na perimenopausa: podem durar mais de 11 anos
  • Se começaram após a menopausa: tendem a durar cerca de 3,4 anos

Existem quatro trajectórias típicas: sintomas ligeiros (42% das mulheres), moderados (18%), severos com início precoce (11%) e severos com início tardio (29%). Factores como raça, índice de massa corporal, tabagismo, stress e ansiedade influenciam a severidade e duração.

A ideia de que "passa em dois anos" é um mito. Para muitas mulheres, os afrontamentos persistem durante uma década ou mais — e merecem ser tratados, não ignorados.

Tratamentos com evidência científica: o que realmente funciona

Não precisas de "aguentar". Existem hoje opções comprovadas que podem reduzir significativamente a frequência e intensidade dos teus afrontamentos. Vamos ver as principais, começando pela mais eficaz.

1. Terapêutica hormonal — a primeira linha de tratamento

A terapêutica hormonal (TH) é, de acordo com todas as principais sociedades médicas mundiais — incluindo a The Menopause Society (antiga NAMS), a International Menopause Society e a British Menopause Society — o tratamento mais eficaz para os afrontamentos. Pode reduzir a frequência dos episódios em até 75% e a sua intensidade de forma ainda mais expressiva.

Para mulheres saudáveis com menos de 60 anos, ou que estejam nos primeiros 10 anos após a menopausa, os benefícios superam os riscos. Além de tratar os afrontamentos, a TH melhora a qualidade do sono, o humor, a saúde óssea, os sintomas geniturinários e pode ter efeito protetor cardiovascular.

As formulações atuais são muito diferentes das utilizadas nos estudos mais antigos (como o WHI). Hoje usam-se doses mais baixas, estradiol bioidêntico em vez de estrogénios conjugados, e progesterona micronizada em vez de progestagénios sintéticos — um perfil de segurança muito melhorado.

Se tens útero, precisas de estrogénio + progesterona. Se fizeste histerectomia, o estrogénio isolado é suficiente. As vias de administração incluem comprimidos, adesivos transdérmicos, gel e spray — e o teu médico pode ajudar-te a escolher a opção mais adequada ao teu perfil.

2. Novos tratamentos não hormonais: os antagonistas NK3R

Lembras-te dos neurónios KNDy e da neuroquinina B? A descoberta do seu papel nos afrontamentos levou ao desenvolvimento de uma nova classe de medicamentos — os antagonistas do recetor NK3R — que bloqueiam diretamente este mecanismo.

O fezolinetant (Veozah), aprovado pela FDA em 2023, foi o primeiro desta classe. Reduz significativamente a frequência e intensidade dos afrontamentos moderados a severos, sem utilizar hormonas. Em 2025, a FDA aprovou o elinzanetant (Lynkuet), um antagonista duplo dos recetores NK1 e NK3, com benefícios adicionais para o sono.

Estes fármacos representam uma mudança de paradigma, especialmente para mulheres que não podem ou não querem fazer terapêutica hormonal — como sobreviventes de cancro da mama, mulheres com risco cardiovascular elevado, ou simplesmente quem prefere uma opção não hormonal.